Temor vs Angústia
Pessoal, essa é uma versão mais ampliada do verbete que eu inseri lá no Glossário Heidegger da plataforma moodle.
Tem vários exemplos. Aproveitem aí!!!
“O temor descobre o mundo de uma maneira especial e está próximo, ainda que distinto, de Angst (“angustia, ansiedade, desconforto”): “O temor é angústia decaída no ‘mundo’, inautêntico e descoberto para si mesmo como angústia”. O que eu temo é um ente dentro do mundo, por exemplo uma broca de dentista. Este ente é “prejudicial”. Prejuízo é o “modo de sua conjuntura”. O prejuízo é de um tipo definido, dor de dente, e vem de uma região definida, o dentista. A região e o que vem dela me são familiares como “amedrontadores”. A broca ainda não está no meu dente ou nervo, mas está se aproximando. Já está próxima. (A consulta do mês seguinte não me incomoda.) Ela ameaça, mas não é certo que chegue. Eu posso não precisar de uma obturação; pode ser que não doa se eu precisar. A incerteza persiste até o último momento. A incerteza intensifica meu temor.
Eu não temo a broca simplesmente por causa da dor que eu espero. Algumas pessoas não temem a broca do dentista, algumas talvez não temam nada. Elas podem esperar a mesma intensidade de dor que eu espero, mas não a consideram temível e não lhe dão a mesma atenção que dou. (Já que não tenho medo de aranhas, não receio de aproximar da pia quando há uma se escondendo lá, nem “espero” deparar-me com uma, apesar de não se improvável que eu a encontre.) O temor não é apenas um sentimento interno; ele abre um mundo de ameaças potenciais. O meu medo letárgico, minha suscetibilidade ao temor, “já descobriu o mundo como uma esfera da qual o temeroso pode aproximar-se”. Eu temo por mim mesmo DASEIN. Mesmo que eu tema por minha “casa e lar” eu temo por mim mesmo enquanto “ser-junto-a que tem uma conjuntura”. Se temo por outros, eu também “temo por mim mesmo”; aquilo que eu tenho medo é “de meu ser-com o outro, que poderia ser arrancado de mim”. (Como eu temo por mim mesmo, se compor um seguro de vida ao temer o futuro de minha família?)
O temor é, portanto, um estado em que alguém se encontra; ele descobre o mundo, o ser lançado nele de alguém, e a conjuntura de entes dentro dele.
INWOOD, Michael. Dicionário Heidegger. Tradução de Luiza Buarque de Holanda. Rio de Janeiro: Editora Jorge Zahar, 2002. p. 8-10.
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